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domingo, 26 de fevereiro de 2017

O Circo Chegou



O circo chegou, o ruído estridente saía de um alto-falante zuadento que tocava repetidamente aquele clássico: ta-na-na-na-na-na-na, ta-na-na-na-na-na-na, carregado por um DKV caindo aos pedaços, com aquele barulho infernal saindo do motor, tipo ferro batendo e explosões fora de tempo, coisa que somente quem já viajou em um carro destes ou viu algum em circulação pode entender. O carro velho estava todo recoberto por enormes balões coloridos e listrados, com uns palhaços dentro e um sujeito muito magro de maiô em cima do capô, visão suficientemente necessária para desobrigar muita gente de querer ir ao espetáculo.
Estávamos ali em frente ao supermercado Nishida sentados à toa, sem fazer nada, a não ser criar histórias sobre as pessoas que passavam, éramos bons nisso, hoje penso que eu era bem melhor que os outros dois, pois sempre se riam muito ou ficavam apavorados quando eu traçava os perfis dos transeuntes - estivesse na Bahia, certamente ouviria algo do tipo, Deus é mais - inclusive detalhando situações da vida pessoal e do ambiente doméstico do passante desconhecido que ignorava a nossa existência. Lógico, os outros também faziam graça, mas não entravam em detalhes, digamos assim... mais íntimos. De qualquer forma, nos divertíamos a baixo custo explorando a aparência dos alheios.
Quebrando a monotonia, um alarido vinha da rua lateral ao supermercado, engarrafando o trânsito sem ninguém... continue lendo

sábado, 17 de julho de 2010

EPITÁFIO II


Epitáfio Quebrado


Ednaldo deixou o copo cair no chão, molhando um pouco o carpete, fato que deu motivo para breve fala exaltada da esposa, ressaltando sua incompetência.

O miserável levantou meio que se arrastando, meio que morto-vivo, pegou o copo que caiu em pé e colocou sobre a pia, como quem deixava para depois.

Foi então arrumar a mesa como a esposa pediu. Apagado em seus pensamentos, esboçava um risinho irônico contra si mesmo ao se indagar o quanto a sua vida estaria valendo naquele momento; não conseguia escanear na memória, se já houve algum tempo em que teve maior valor. Arrumou a mesa silenciosamente, fez o melhor que pode diante da própria mediocridade; usou a sua antiga e rápida experiência como garçom de botequim, um tempo longínquo onde já tivera alguma esperança.

A mulher, não menos medíocre, sem lhe dar crédito algum, disse ao voltar do banho que homem que é homem não se mata sem dar aviso ou deixar um bilhete, pois não seria justo a polícia vir com suspeitas para cima dela; também se faz necessário deixar os papéis bancários organizados, uma viúva não pode ficar desamparada; e que seria bom que ele aprendesse com ela a organizar os documentos em pastas específicas.

E falou que sobre o assunto tinha só mais uma coisa a dizer: se ele realmente quisesse cometer algum suicídio idiota, que fosse no decorrer do dia, nunca em horário próximo a sua chegada do trabalho, porque assim ele não passaria pelo vexame de ser socorrido e ter que dar explicações à família e aos estranhos.

Ednaldo comia lentamente, enquanto a companheira abandonando o assunto anterior, falava sobre bolsas e sandálias, sem deixar de dar destaque especial para um jogo de jantar que vira no centro comercial no horário do almoço; disse também que encontrou uma loja com boas camisas em promoção, sugerindo que o marido fosse dar uma olhada, porque nem para se trajar ele servia.

Com uma falsa atenção, o sujeito mastigava o jantar sem ouvir direito o que a mulher dizia, pois seus pensamentos pairavam ainda sobre a decisão de morrer.

Terminado o jantar, a esposa perguntou se Ednaldo queria um cafezinho. Ele se ofereceu para pegar. E ela, que continuava a tagarelar, fez pausa para dizer que preferia o seu café em uma xícara grande. E continuou dizendo que o marido não tinha competência para escrever um bilhete de despedidas.

Ednaldo pegou um bloco de papel e a desafiou: “mostre-me o que você escreveria”.

A mulher arrogante rabiscou umas três linhas em um pedaço de papel e o entregou ao marido. Enquanto a deprimente mulher tomava o café, o homem medíocre leu o bilhete às gargalhadas. Logo a esposa começou a se contorcer e morreu. O homem levantou-se da mesa, foi para o quarto e dormiu um sono profundo, não sem antes examinar o cadáver e colocar o pedaço de papel sobre a mesa, bem em frente à esposa suicida.

Este texto é uma sequência de "Epitáfio", de Ivette G.M. (publicado em 14/07), a mesma acenou positivamente a esta minha intromissão, concordando com a publicação neste blog.
Almirante Águia

Este trabalho e muito mais, vocês encontram
no Site Lima Coelho. Siga este link.
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quarta-feira, 14 de julho de 2010

EPITÁFIO I

Epitáfio
Aqui jaz um medíocre redimido pela morte!

Este seria o seu epitáfio já que naquele momento Ednaldo segurava um copo contendo veneno, que pretendia tomar, sentado em uma poltrona, na penumbra da sala, trajando sua melhor roupa, bem barbeado e cuidadosamente penteado.

Tomou consciência de sua mediocridade quando pela primeira vez, aos oito anos de idade, ouviu sua mãe dizer-lhe que era uma criança absolutamente medíocre. E daí para a frente nunca mais ela deixou de lembrar-lhe a sua mediocridade.

As mães sempre estão certas sobre seus filhos, ele pensou. Foi um estudante medíocre, um adolescente medíocre, um namorado medíocre, casou-se com uma mulher medíocre e foi um marido medíocre. Nunca teve nenhuma idéia brilhante, nenhuma conversa agradável, sequer sabia escolher as próprias roupas. Vestia-se de forma medíocre. Sua vida era de uma rotina medíocre!

Era um trabalhador medíocre e nunca chegou a encarregado nem a chefe porque seria um chefe medíocre. Seu salário também era medíocre e não chegava sequer a proporcionar-lhe uma vida menos medíocre.

Era chegada a hora de fazer algo espetacular! Uma morte da qual todos falariam e se lembrariam.Não tiraria a própria vida com arma de fogo, embora pudesse ser um ato mais espetacular, para os fins a que se destinava. Tomando veneno ele teria mais controle sobre o final da tragédia.

Seu epitáfio estava escrito em uma tira de cartolina, colocada sobre seu peito. E se ele o modificasse? Poderia ser assim: “ Aqui jaz um homem de coragem”. Ou ainda: “ Aqui jaz um homem que viveu mal e morreu bem”. Não, muito esquisito. Resolveu deixar a primeira opção: “Aqui jaz um medíocre redimido pela morte”.

Tudo planejado e a ponto da execução quando sua mulher entrou em casa, arrastando suas chinelas,com seu eterno jeitão de enfado, trazendo uma cesta de compras. Olhou para aquela cena e disse, em tom de voz cansada: “Que dramalhão medíocre é este que você está encenando? Pare com essa besteira e arrume a mesa para o jantar.”

Quebrou-se o clima planejado para o “gran finale”. Não tinha jeito mesmo. Seu epitáfio já fora escrito pelo destino.

Aqui jaz um medíocre.

Autora: Ivette G.M
Este texto pode ser lido no PORTAL OVERMUNDO

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