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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

WEB 2.0 – IV (Relacionamentos)



Quarta impressão - Final da série Web 2.0
— Cara, você já viu como as pessoas estão presas a tecnologia, tudo refém! Ninguém mais sabe acender um fogo de carvão, é preciso que se tenha uma churrasqueira turbo-mega-plus-
microssitema-xptod2-trans-computadorizado, com timer automático, resposta de segurança rápida e exclusivo alarme que informa o horário de encerrar o final de semana.
— Vixi! Que é isso? Nunca vi um bicho destes!
— Verdade. Existe!
— Pois é, como se não bastasse sermos escravos das ideologias, dos dogmas, da politicagem e outras sandices da civilização... Agora precisamos ser escravos dos aparelhos eletrônicos, dos manuais multilíngues e da criatividade ofegante.
— Credo, não precisa tanto. O que você anda lendo?
— Não é caso de leitura, é observação um tanto complexa de um mundo prolixo. O moto-contínuo inexistente faz de um tudo para prevalecer, transformando pessoas em autômatos.
— Não vai me dizer que você acredita nestas porcarias aristotélicas?
— Não acredito, e não é nem por causa de Aristóteles, mas pelos que vieram depois dele...
— Humm! Não entendi nada, quer dizer que você está estudando filosofia às escondidas? Porra cara, esta valeu meu dia!
— Não se anime muito, estou só fazendo umas pesquisas e leituras soltas.
— Leituras soltas, rá, rá, rá... Está gostando? Tá lendo o que?
— Tenho lido um monte de coisas, comecei acreditando em uma ordenação universal, depois descobri que o universo é caótico e controverso, o mundo é um embuste, a civilização é uma falácia. Não há verdade fora da dúvida, e nem sobre isso posso ter certeza.
— Caraca! Que salto! Você saiu do antes de cristo, indo beber direto nos anticristos...
— Velho, não pira, não bebi nada. Estou é bastante confuso, mas não sou nenhum anticristo.
— Calma... Não foi o que eu quis dizer, estava referindo-me aos autores que você parece estar lendo.
— Então deixa pra lá! Melhor que falemos sobre pessoas e celulares...
— Sendo isso o que você quer, faço um alerta muito sério... Depois que as dúvidas se instauram, somente com a fuga da realidade é possível viver no mundo que nos é oferecido.
— Então o mundo é diferente do que eu vejo? Você esta falando em loucura, esquizofrenia ou o quê?
— Ainda não. Estou falando que é preciso recriar um mundo onde certas percepções e sentimentos não nos incomodem. Uma fuga simples para o berço da convivência comum em sociedade. Uma das saídas é misturar-se a massa em seu delírio compartilhado. O outro modo é ser o que você está sendo agora... Um corpo estranho, um camelo em meio aos nelores®. Freud explica!
— Quase entendo o que esta me dizendo, mas não ajudou muito. Conta logo aí um dos seus casos estranhos sobre pessoas que só você conhece e não pode dizer o nome.
— Não é bem assim, não preciso citar nome de ninguém, uma pessoa é sempre muito igual as outras.
— Tá bom, fala aí o que você tem ob-ser-va-do!
— Certo... Estávamos falando sobre tecnologia e escravidão social, então comecei a perceber que as pessoas não se reúnem mais as portas das suas casas para bater papo, trocar receitas e combinar almoços. Agora o que vemos são pessoas tristes e solitárias, principalmente os idosos, que se sentam com os celulares ao lado, esperando uma porra de ligação que nunca chega.
— Só isso?
— Ou então estudantes que vão para o pátio da escola teclar em seus aparelhos e trocar memes de achincalhe, muitas vezes de si mesmos, ao invés de estarem falando sobre baboseiras de adolescentes ou participando de atividades criativas.
— Só isso?
— E as famílias, os casais, os grupos de amigos, que vão para a pizzaria, ao invés de conversarem entre si, ficam a trocar mensagens, nunca com outros distantes, mas entre eles mesmos.
— O que há de ruim nisso, as pessoas não estão se comunicando?
— Você não entendeu? As pessoas não se encontram mais, os relacionamentos acontecem por redes sociais, e-mails e chats. As pessoas se contentam com as fotos do almoço, dos netos, do cachorro novo, da nova tinta da varanda. Ninguém se conhece mais do que pela imagem plana de um avatar. Ninguém mais tem uma agenda de endereços. Tudo está na internet, boiando em uma solução invisível de eletromagnetismo aparentemente controlável... E, se esta merda sofrer uma pane geral? Você vai saber encontrar a casa nova do seu pai?
— Vai ser difícil, tenho umas fotos da casa e sei em qual bairro fica, mas não tenho o endereço...
— Então, é sobre isso que estávamos falando anteriormente, vivemos em uma ilusão controlada por nós mesmos. Acreditamos estar mais próximos das pessoas, enquanto nos isolamos cada vez mais.

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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

WEB 2.0 – III (O outro)



Terceira impressão - Série Web 2.0
— Rapaz! Celular me tira do sério...
— De novo este papo de celular? Vamos virar o disco!
— Qual é? Você é o primeiro a criticar... Agora vem com essa de “virar o disco”!
— Tá certo, fala aí o que está lhe incomodando.
— Nada demais não... Só que...
— Bora! Desembucha!
— Que porra! Vou falar... Já conversou com alguém que estivesse ouvindo músicas do celular com um fone nos ouvidos?
— Já! Isso é muito tenso... Mas não é pior que a pessoa atender o aparelho no silencioso e, sair falando na ligação. Assim, sem mais nem menos, não pedem nem licença. Pior ainda, quando não estamos olhando para a pessoa, acreditamos que as falas são para a gente... Desrespeito da porra!
— Então, é disso que estou falando! A porcaria do celular, o mau uso, está acabando com as relações.
— Velho, você nem acredita, outro dia tava com uma figura lá em casa fazendo uns negócios, o celular dela toca, ela estica o braço, pega o aparelho e diz: “Tenho que atender, é a minha avó!”.
— E aí? Parou tudo...
— Parar o que? Eu parei, mas a mina ficou lá, falando ao telefone, montada, dizendo a sei lá quem, que iria demorar e coisa e tal... Não parou nem um segundo.
— Então foi legal para você!
— Legal como? Mudei de estágio, morri!
— Se lascou! E a mina?
— A miserável, quando largou o telefone, disse: “Ué! Que foi que deu em você?”.
— Agora com esse negocio de zap zap, então...
— Bora parar... Chega deste assunto! Perdeu a graça.
— KKKKKKK shusksshuasshus!
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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

WEB 2.0 – II (Fakes)

Segunda impressão - Série Web 2.0


— Outro dia falávamos de internet e redes sociais, ai fiquei pensando umas coisas...
Será que todo mundo que coloca aquelas tags tipo: #banho, #academia, #caminhada,
#estudar, até #banhoNogato, #tcc, #énois, #partiu, #fui. Você acha que esta galera estava realmente indo fazer tudo isso, ou estavam todos mentindo, sem coragem de dizer que iriam assistir novelas ou algum domingão em qualquer canal de tv?
— Rapaz, você é incrédulo mesmo, né? Da um votinho de confiança para o povo...
— Qual é, não posso mais questionar? Além do mais, estou generalizando sem acusar ninguém diretamente... Parece até que a carapuça serviu!
— Tá bom! Tá bom! Para desfazer o mal entendido, lembrei-me de um sujeito que ao chegar o fim de semana, se não tivesse grana pra sair, publicava o seguinte: “Galera estarei em off todo o final de semana. Para vocês que ficam, bom FDS! Até segunda! #viagem #família”. O doido ficava trancado dentro de casa, sem botar a cara na rua.
— Mentira, esse negócio?
— Mentira nada! Imagine só... Ele mesmo me contou que ficava só observando tudo o que era postagem dos outros, enquanto se roia de vontade de curtir, comentar ou compartilhar, mas não podia. Então ele anotava o que era mais importante, no domingo a noite começava a maratona de sair curtindo e comentando o atrasado.
— Tá certo. Deve ter um monte de gente sem noção ficando doente por causa das redes sociais...
— Problema dos mais sérios... Deixa prá lá, me lembrei de um caso...
— Pronto, agora o senhor certinho vai esculhambar com outra pessoa!
— Eu mesmo não, cada qual que esculhambe a própria vida com os direitos que puder!
— Momento filosófico, vou anotar isso ai que você falou e...
— Larga de ser besta, deixa eu contar o caso, você conhece a mina... A figura fez um selfie caprichado, toda produzida, pagando decote e um quarto da bunda, com direito a visão da barriguinha e um beiço bem vermelhinho. Uma loucura! Na outra mão tinha uma garrafa de vodka e uma de ice. Tava lá a foto maravilhosa com as seguintes tags: #SABADÃO, #BALADA, #TOINDOMIGAS. Eu estava bem aqui na barraca do Zeca olhando tudo pelo meu tablet, quando em cerca de cinco minutos, a sujeita chega de chinelão, com um bermudão de calça velha e uma camiseta do Nirvana, os cabelos presos de qualquer jeito, sem nenhuma maquiagem.
— Vai falar quem é?
— Não!
— Então conta logo a bagaça...
— Bem, a mina pediu um especial da casa com suco promocional, falou pro Zeca que só pagaria na terça-feira e sentou-se ali, sozinha...
— E aí, falou com ela? Esfregou o status dela na cara? Pegou?
— Pera lá! Fiquei com muita pena... A Angélica a chamou pra sentar com a gente e tomar uma cervejinha...
— Então...
— Ela disse que não bebia.
— É foda!
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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

WEB 2.0 – I (Redes Sociais)

Série de quatro diálogos apresentando algumas impressões de problemas relacionados a internet e a conexão de pessoas.

— Celular é uma merda! Ora tem sinal, ora não tem...
— Pior é o meu, cheio de bagulhos que não sei nem para que servem!
— E, se vacilar, comem a bateria toda, te deixa na mão...
— Bateria uma porra! Os aplicativos e a internet consomem os créditos como se fossem ácidos.
— Putz, é verdade!
— Cara, eu pensava que o Orkut só tinha porcaria...
— Ainda existe este troço?
— Parece que sim! Não sei! Mas inventaram o Whatsapp...
— Nem fala... Já desinstalei o meu. Quem quiser passar mensagem, que mande um torpedo. Claro, pode usar o inbox do Face... Este também tava ficando meio ruim, a galera postava aquelas fotos de lasanha com aqueles tomates deformados, churrasco queimado, prato de feijoada todo remexido... Caraca, eu tava até engordando com tanta porcaria!
— Quá, quá, quá! Foto de comida é pouco, veja está: O sujeito vai para uma festa, tira umas trezentas fotos, com garrafas de bebidas vazias só coisa top. Outras com a mão na latinha, sentindo-se o fodão do vazio. Abraça umas minas caça-prêmios, também de latinha nas mãos, que não estão nem aí pra ele. Quando chega em casa descarrega tudo de vez, 300 fotos de significado nenhum, na própria página, sendo que somente umas cinco imagens valem a pena!
— Não vou nem falar daquelas pessoas que escrevem tudo em caixa alta, cheio de erros, pior é que se atrevem a corrigir erros alheios quando não tem resposta certa para algum questionamento...
— Não velho, tem aqueles admin. de page ou então uns esnobes, que ficam o tempo todo repetindo a mesmo comentário: “CAIXA ALTA NA INTERNET SIGNIFICA QUE VOCÊ ESTÁ GRITANDO, AQUI NINGUÉM É SURDO!” KKKKKKKKK
— Vixi... Pura verdade! Não paro de rir com estas coisas. Mas o Facebook melhorou muito...
— Sei não... Talvez não tenha melhorado nada... Na boa, acho que parei de seguir tudo que é postagem que aparece. Minha mente está muito seletiva, devo estar saindo do confuso para o conciso. Pode ser também que a minha percepção esteja ficando limitada.
— Você só tem piorado. Aposto na última frase!

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